Os relatórios de sustentabilidade publicados pelas empresas são uma forma de comunicação com os chamados stakeholders — ou seja, todos os públicos impactados por seus negócios ou que tenham interesses neles, como funcionários, acionistas, clientes, fornecedores, ONGs, comunidades do entorno e a sociedade em geral. E, é claro, com os consumidores, especialmente os conscientes, que procuram informações sobre as empresas e buscam conhecer seu real compromisso com a sustentabilidade, orientando assim suas escolhas de produtos e serviços.
Os relatórios de sustentabilidade publicados pelas empresas brasileiras, entretanto, ainda estão muito aquém da necessidade de informação dos consumidores e da sociedade. A pesquisa Rumo à Credibilidade, realizada por uma parceria entre a Fundação Brasileira de Desenvolvimento Sustentável, a consultoria inglesa SustainAbility e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente avaliou a qualidade dos relatórios brasileiros e apontou os dez melhores. Mas, nem mesmo esses foram considerados satisfatórios. “Ainda há um grande passo que as empresas brasileiras precisam dar na qualidade de seus relatórios, na divulgação de informações e na transparência”, analisa Jodie Thorpe, diretora do Programa para Economias Emergentes da SustainAbility. “Mas, acho que elas vão superar esse problema rapidamente.”
Foram avaliados os relatórios publicados em 2007. Seguem aqueles considerados como os 10 melhores relatórios de sustentabilidade brasileiros, segundo a pesquisa. Acesse-os clicando sobre eles:
2 Suzano Petroquímica*
4 Coelce
5 Banco Real
7 Sabesp
8 Bunge
10 Banco Itaú
Entre essas empresas, são filiadas ao Instituto Akatu: os Bancos Itaú e Real (parceiros pioneiros), a Ampla e a Bunge (associados beneméritos) e Energias do Brasil (associado ouro).
A pesquisa brasileira Rumo à Credibilidade integra o Programa Global Reporters, que há quinze anos avalia a qualidade dos relatórios em todo o mundo. Pela primeira vez, essa pesquisa foi feita em nosso país, que foi escolhido, segundo Jodie, porque a taxa de crescimento do número de empresas que publicam relatórios é maior aqui do que no resto do mundo. Além disso, o país é líder entre os emergentes nas práticas de responsabilidade socioambiental. Entre 2006 e 2007, 76 empresas brasileiras publicaram relatórios de sustentabilidade, contra 18 na China e 12 na Índia.
A última pesquisa do Global Reporters, divulgada em 2006, mostrou que o relatório da British Telecom, o primeiro do ranking mundial, recebeu 80% dos pontos possíveis, enquanto o décimo colocado atingiu 39%, com média de 57%. No ranking brasileiro, a campeã Natura conseguiu 54% dos pontos possíveis e o Banco Itaú, 35%, sendo a média de 47%. Para Clarissa Lins, diretora-executiva da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável, isso significa que “o Brasil tem bons relatórios de sustentabilidade, mas ainda há um grande caminho a ser percorrido”.
Um dos principais pontos para reflexão, segundo Clarissa, é a “proporção épica” das publicações. “Nossos relatórios têm em média 160 páginas, enquanto a média mundial é de 60. Há 100 páginas que as empresas devem tirar e aprender como ir direto ao ponto”, afirma.
Estas foram algumas das principais conclusões da pesquisa:
O relatório de sustentabilidade pode se tornar um bom instrumento para que o consumidor tenha mais informações sobre as empresas, na opinião de Clarissa Lins, desde que seja “crível, focado e seja entendido como prestação de contas pela empresa. Tenho dúvidas se o consumidor vai ler relatórios extensos, como os que são publicados hoje”. Clarissa enfatiza especialmente que as empresas não devem usar o relatório como única peça de comunicação, e sim ter vários canais para atingir os vários públicos.
Um bom exemplo do uso de novos canais de comunicação, assim como de transparência ao lidar com dilemas e desafios, vem da Timberland, empresa americana fabricante de botas e roupas para atividades ao ar livre. A Timberland publicou o que chama de “Relatório 2.0” na rede Just Means. Nesse site, a empresa colocou o vídeo de uma entrevista de Jeffrey Swartz ao programa Eco Footprint, em que o presidente e CEO da Timberland relata como enfrentou um desafio da sustentabilidade. Segundo Swartz, a Timberland viveu a contradição de ser uma marca identificada com atividades ao ar livre e usar, na fabricação das botas de couro impermeáveis, um produto químico nocivo ao meio ambiente. O produto foi trocado por outro menos danoso, mas que custa mais caro, o que obrigou a empresa a fabricar suas botas de maneira mais eficiente.
A rede americana de cafeterias Starbucks usou a internet para abrir um espaço de relacionamento com os consumidores, não para falar sobre a empresa, mas para ouvir seus clientes. O site My Starbucks Idea informa logo na primeira página: “você sabe melhor do que ninguém o que você espera da Starbucks. Então, diga-nos”. O consumidor pode enviar suas idéias, votar nas melhores idéias apresentadas por outros, discuti-las e ver como a empresa implementou sugestões recebidas.
De acordo com Jodie Thorpe, da SustainAbility, a tendência é que as empresas usem cada vez mais canais diversificados de comunicação com seus públicos. Em um futuro próximo, a tecnologia vai permitir que as informações sejam disseminadas com muito mais transparência e de várias formas, não apenas nos relatórios de sustentabilidade. Para os consumidores, especialmente os conscientes, essa é uma ótima notícia, pois significa que vem muito mais informação por aí.
*Relatório publicado em 2006. Em julho de 2008, a Suzano Petroquímica foi comprada pela Petrobras. O relatório não está mais disponível na internet.
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