18.04.22 às 8:06

Povos indígenas: muito mais que guardiões das florestas 

Eles se compreendem como natureza e nos ensinam a cuidar dos ecossistemas — por isso merecem nosso respeito e nossa proteção

No dia 19 de abril celebramos o Dia dos Povos Indígenas, que são muito mais que os guardiões das florestas e verdadeira referência para todos nós na relação, no respeito e no cuidado com o meio ambiente.

O nome da data, antes conhecida como Dia do Índio, foi atualizado por um projeto de lei  proposto por Joenia Wapichana, primeira mulher indígena eleita para a Câmara dos Deputados, em 2018, e aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados em dezembro de 2021. A mudança no nome valoriza a pluralidade das nações indígenas, cada qual com seus costumes, línguas e valores distintos, em vez  de abordar a cultura indígena no singular — só no Brasil existem 305 etnias diferentes. 

Se possuem costumes diversos, ao menos um ponto une todas as nações indígenas: a forma de se relacionar com a natureza. Os povos indígenas são mais que guardiões do meio ambiente, pois se compreendem como natureza, estabelecem modelos de trocas equilibradas — e não monetárias — com todos os outros seres, preservando biomas e mantendo a biodiversidade de ecossistemas. 

“A relação entre os povos indígenas, a preservação do meio ambiente e da biodiversidade é uma relação única, semiótica e ritualista. Não temos como falar em preservação do meio ambiente e preservação da Amazônia sem levar em consideração os povos indígenas”, explica Samela Sateré Mawé, artesã, influenciadora e ativista indígena de Manaus (AM), em entrevista ao Akatu. “Nós, povos indígenas, somos os principais defensores do meio ambiente e da floresta preservada. Estamos sempre na luta por território e sabemos que os territórios indígenas são as terras mais preservadas da biodiversidade.”

As palavras de Samela reverberam o livro A Queda do Céu, do líder Yanomami Davi Kopenawa: “Na floresta, a ecologia somos nós, os humanos. Mas são também, tanto quanto nós, os xapiri, os animais, as árvores, os rios, os peixes, o céu, a chuva, o vento e o sol. É tudo o que veio à existência na floresta, longe dos brancos, tudo o que ainda não tem cerca”. 

Confira algumas contribuições inestimáveis dos povos indígenas na preservação do meio ambiente e no combate à crise climática, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO): 

1. Proteção a 80% da biodiversidade 

Estima-se que os povos indígenas constituam apenas 5% da população global e seus territórios ocupem somente 28% da superfície terrestre mundial, mas, juntamente com famílias ribeirinhas, eles protegem e preservam 80% da biodiversidade mundial, entre animais, plantas, rios, lagos e áreas marinhas.

2.Restauração de florestas e recursos naturais

Os povos indígenas não só pertencem ao ambiente em que vivem, mas se compreendem como tal, mantendo o respeito à natureza. Comunidades de pastores indígenas, por exemplo, cuidam das pastagens e do cultivo preservando fauna e flora. Nas montanhas, os sistemas de gestão preservam o solo, conservam a água e diminuem o risco de desastres. E, na Amazônia, povos indígenas defendem a floresta de queimadas, desmatamentos e mineração ilegal, protegendo a biodiversidade. 

3. Tradições ricas em dietas diversificadas

Atualmente, o mundo depende de um conjunto reduzido de culturas alimentares básicas, como arroz, trigo e milho, que fornecem apenas metade das necessidades energéticas para a nossa nutrição. Repleto de colheitas nativas nutritivas, como quinoa e oca, os sistemas alimentares dos povos indígenas podem ajudar a humanidade a expandir essa base restrita de alimentos e incluir diferentes ervas, grãos, frutas, animais e peixes cultivados de forma mais sustentável. 

4. Safras mais sustentáveis 

Os povos indígenas cultivam uma variedade de espécies nativas que são adaptadas aos contextos locais. Essas safras geram menos poluentes e desperdícios, usam recursos naturais de forma consciente e são inspiração para uma agropecuária mais sustentável.

5. Práticas agrícolas adaptadas às mudanças climáticas

Nações indígenas ao redor do mundo desenvolveram técnicas agrícolas que se adaptam melhor aos ambientes extremos, seja em altas altitudes ou pastagens secas. Terraços que evitam a erosão do solo e jardins flutuantes em campos inundados são métodos comprovadamente adequados para mudanças de temperatura e eventos climáticos. 

“Os povos indígenas são parceiros inestimáveis no fornecimento de soluções para as mudanças climáticas e na criação de um mundo sem fome. Nunca alcançaremos soluções a longo prazo para as mudanças climáticas e para a segurança alimentar e nutricional sem buscar ajuda e proteger os direitos dos povos indígenas.” —  Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO)

Resistência

De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), existem cerca de 370 a 500 milhões de indígenas em 90 países ao redor do mundo, representando 5 mil culturas diferentes. No Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima cerca de 1,1 milhão de residentes em localidades indígenas e outros 1,1 milhão em quilombos nas cinco regiões do país.

Apesar de ser uma população relativamente pequena — dizimada ao longo dos séculos desde a chegada dos portugueses em solo brasileiro até os dias de hoje, em que a política do branqueamento segue ativa, ainda que não oficialmente — os povos indígenas são essenciais para a proteção das nossas florestas e, por isso mesmo, deveriam ser protegidos por todos nós. 

Nos últimos 40 anos, por exemplo, 20% da Floresta Amazônica foi devastada por madeireiras, grileiros, posseiros, criadores de gado, garimpeiros e mineradoras, enquanto as Terras Indígenas na Amazônia Legal perderam apenas 2% de suas florestas originais.  

Ainda na Amazônia, os povos Apurinã, Paumari, Jamamadi e Deni contribuíram para a conservação de um estoque de carbono que equivale a 114 milhões de árvores, de acordo com o relatório do projeto Raízes do Purus. Com a contribuição preciosa e com as práticas sustentáveis de cultivo e estilo de vida, esses povos vão ajudar a remover mais de 1 milhão de toneladas de dióxido de carbono (CO2) entre 2021 e 2024, conservando mais de 2,3 milhões de hectares de floresta amazônica — o equivalente a 3,2 milhões de campos de futebol. 

Ao mesmo tempo, as queimadas e o desmatamento ilegal promovidos por madeireiras, garimpeiros e pecuaristas avançam sobre os territórios indígenas, ameaçando a vida de seus povos. Um levantamento feito pela organização Global Forest Watch e pelo portal Repórter Brasil mostra que mais de 115 mil focos de incêndio atingiram as Terras Indígenas em todo o país entre janeiro e outubro de 2021, em especial no Parque Indígena do Xingu (MT) e no Parque Indígena do Araguaia (TO).

Já um estudo da Hutukara Associação Yanomami, lançado no início do mês, revela um avanço de 46% das práticas de garimpo ilegal em terras Yanomami, o que não só destrói o meio ambiente como também espalha doenças sexualmente transmissíveis e resulta em casos de agressão sexual, prejudicando diretamente 273 comunidades. 

Defender os povos indígenas e consequentemente nossas florestas é algo que compete a todos nós. Além de assegurarmos os meios de sobrevivência dessas populações milenares, cada vez mais vulneráveis, estamos preservando rios e nascentes, espécies da fauna e da flora, conservando ecossistemas e recursos naturais essenciais para a manutenção da nossa vida e das futuras gerações.

Akatu Indica

O curta-metragem “Ka’a Zar Ukyze Wà — Os Donos da Floresta em Perigo”, coprodução de Mídia Índia, Instituto Socioambiental e Instituto Catitu, é um alerta e um pedido de proteção aos índios Awá Guajá, comunidade isolada cujo estilo de vida depende essencialmente das florestas na Terra Indígena Araribóia (MA), brutalmente ameaçada por madeireiras, grileiros e posseiros. Assista:

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